Tribunal Penal Internacional vence prémio Sakharov do Parlamento Europeu
O Tribunal Penal Internacional venceu esta quinta-feira o prémio Sakharov, atribuído pelo Parlamento Europeu, numa altura em que a instituição tem sido alvo de sanções e pressões dos Estados Unidos.
A atribuição do prémio ao Tribunal Penal Internacional foi anunciada pela presidente do Parlamento Europeu (PE), Roberta Metsola,em Estrasburgo.
"A União Europeia assenta no respeito pelo multilateralismo e pelas instituições internacionais", declarou Roberta Metsola no plenário em Estrasburgo, destacando "o importante trabalho desenvolvido para fazer respeitar o direito e a justiça à escala internacional".
2026 Sakharov Prize for Freedom of Thought Laureate @EP_President Metsola announces the International Criminal Court and its officials as the 2026 laureate of the Sakharov Prize, to be awarded by Parliament in December at a plenary session in Strasbourg. https://t.co/ef8jIJLCXF
— EP PressService (@EuroParlPress) October 22, 2026
"O Tribunal Penal Internacional agradece ao Parlamento Europeu por lhe ter atribuído, e aos seus funcionários, o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento deste ano", afirmou a Tomoko Akane em comunicado.
"Esta distinção surge numa altura em que o Tribunal e os seus funcionários enfrentam desafios sem precedentes, incluindo sanções que visam obstruir o mandato judicial do tribunal", afirmou, referindo-se às recentes sanções americanas dirigidas contra a instituição como um todo.
Estas sanções recentes podem afetar diretamente o pagamento dos 900 funcionários do tribunal, bem como as viagens relacionadas com investigações. Terão também impacto, de forma significativa, na autonomia tecnológica da instituição, dado que esta depende fortemente da Microsoft.
Para a presidente do Tribunal Penal Internacional, “num mundo marcado pela proliferação de conflitos, não há paz sem justiça, nem segurança sem direito”.
O prémio representa o segundo reconhecimento internacional ao tribunal de crimes de guerra este mês, acontecendo apenas duas semanas depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter anunciado sanções contra a instituição.
A 9 de outubro, Washington anunciou novas sanções contra o TPI, visando paralisar o seu funcionamento diário — poucas horas após a atribuição do Prémio Nobel da Paz a uma das suas ex-juízas, a sul-africana Navi Pillay.
O presidente norte-americano, Donald Trump — que acredita que o Nobel lhe deveria ter sido atribuído — classificou a escolha como "vergonhosa".
Já o secretário de Estado Marco Rubio prometeu desmantelar, "tijolo a tijolo", o Tribunal de Haia, a que se referiu como um "tribunal fora-da-lei".
Sediado em Haia, o TPI tem sido, desde há algum tempo, alvo do presidente dos EUA, Donald Trump.
O seu tratado fundador, o Estatuto de Roma, estabelece que o tribunal atua em nome de "milhões de crianças, mulheres e homens" que foram "vítimas de atrocidades que desafiam a imaginação e chocam profundamente a consciência humana".
Considerado herdeiro do Tribunal de Nuremberga — encarregado de julgar os crimes de guerra nazis —, o TPI funciona como uma "instância de último recurso", ocupando-se apenas de casos que os tribunais nacionais não querem ou não podem julgar.
Os julgamentos decorrem com a presença de um representante das vítimas, que veem no tribunal de Haia um meio de obter uma justiça que não conseguiram alcançar nos seus próprios países.
Desde a sua criação, porém, o tribunal tem sido alvo de críticas por ter condenado apenas 15 indivíduos — todos africanos — em quase um quarto de século.
Enfrentou também fracassos retumbantes: o ex-presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, foi ilibado; o ex-vice-presidente da República Democrática do Congo, Jean-Pierre Bemba, foi absolvido em recurso; e as acusações contra o presidente queniano, Uhuru Kenyatta, foram retiradas.